Revista Vivamundo realiza um raio-x da coleta seletiva nas cidades da Grande São Paulo e descobre que ela mal existe
Como funciona a coleta seletiva em sua cidade? Você sabe se o lixo reciclável que você separa é realmente reciclado? A revista Vivamundo submeteu sete municípios da Grande São Paulo – Diadema, Guarulhos, Osasco, Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul e São Paulo – a um raio-x sobre a coleta seletiva na maior concentração urbana da América do Sul. E levantou um diagnóstico nada otimista: só a capital paulista gera cerca de 17mil toneladas de resíduos todos os dias, mas recicla menos de um 1% dele.
Com modelos de coleta seletiva similares, algumas das cidades pesquisadas possuem um diagnóstico mais otimista do que outras. A boa notícia é que todos os sete municípios têm cronogramas de coleta e reciclagem de lixo. A má notícia é que alguns são extremamente modestos, pouco eficazes, quase desconhecidos pelos moradores, o que significa que tem muito lixo útil indo para os aterros e lixões da região metropolitana.
Guarulhos
Dona da segunda maior população do Estado, a coleta seletiva de Guarulhos atinge apenas 6% dos moradores e somente 0,03% de todo o lixo gerado no município vai para a reciclagem. Segundo o diretor do Departamento de Limpeza Urbana do município, Paulo Gonçalves de Souza, o motivo é a falta de investimento da prefeitura e a dificuldade do município em obter recursos do governo federal. A cidade criou a Coleta Seletiva Solidária, feita pela Coop Reciclável, uma cooperativa de catadores, que possui dois galpões para a triagem e 52 cooperados que ganham, em média, R$ 650,00 por mês com o serviço. O programa atende apenas sete bairros e 96 escolas da rede pública municipal, além de 20 órgãos públicos municipais, 12 federais e 42 empresas, o que soma cerca de 100 toneladas de resíduos coletados por mês.
São Paulo
Dos 96 distritos municipais da capital, 74 são contemplados pela coleta seletiva porta a porta. Um dado otimista, mas então porque apenas 1% de todo o lixo da cidade vai para a reciclagem? O problema está na falta de mobilização das pessoas e na divulgação da coleta pela prefeitura. A universitária Flávia Pereira da Silva, de 22 anos, conta que tentou realizar a coleta seletiva no bairro da Mooca, onde mora, mas ainda não entende como ela funciona. “Liguei para a empresa responsável pela coleta aqui e me informaram que fariam a coleta na minha casa. No dia, o coletor bateu à minha porta e levou o lixo, mas depois não vieram mais”, conta Flávia. Sua impressão é que a partir de agora ela deve colocar o lixo para a reciclagem no dia em que a coleta seletiva é feita na sua rua. “Mas eu sei que nem todos da rua fazem isso, ou seja, o caminhão coleta todo o lixo, reciclável ou não, mas será que separam tudo de novo”, questiona ela.
Acontece que a coleta seletiva em São Paulo é feita por duas empresas e administrada pela Secretaria Municipal de Serviços. Há dias específicos por bairros e regiões para que a coleta dos recicláveis seja feita, mas a maior parte da população não sabe disso e o lixo úmido é coletado junto com o reciclado. São Paulo produz 10 mil toneladas de lixo domiciliar por dia. A prefeitura afirma que somente 7% disso recebe a destinação correta, mas no total, nem mesmo 1% do lixo da cidade é reaproveitado.
Para estimular a separação, a cidade dispõe de 3811 pontos de entrega voluntária, instalados em bancos, supermercados, escolas públicas e particulares, universidades e condomínios. Mas para atender os cerca de 12 milhões de habitantes, essa política deveria ser acompanhada de uma ampla campanha de conscientização, que está longe de se tornar realidade.
Osasco
Com apenas 30% dos bairros atendidos, a coleta seletiva de Osasco não ultrapassa a casa dos 4% de todo o lixo recolhido diariamente. A reciclagem é feita por cooperativas de catadores, que operam em duas centrais construídas e equipadas pela prefeitura. Segundo o secretário adjunto de obras, Antonio Dias, ainda neste ano o município deve obter recursos do BNDES para expandir o serviço. “A proposta é ampliar a coleta e a criar novos postos de entrega voluntária para que a população possa, de fato, participar do programa”, afirma Dias. O dinheiro servirá para profissionalizar o cooperativismo, criar novas centrais de reciclagem e ampliar as ações de educação ambiental. “Semestralmente a conscientização tem de ser reforçada, para que as pessoas não desistam desta prática”, comenta Dias.
Santo André
Segundo o Semasa – Serviço Municipal de Saneamento Ambiental de Santo André, a coleta seletiva atende 100% do município desde 2000. Os caminhões da coleta seletiva passam em dias e horários diferentes dos que retiram os resíduos orgânicos, ou úmidos. Mas como na capital, muita gente no município não sabe disso. “Nunca vi nenhum tipo de campanha da prefeitura informando isso”, diz a jornalista Ana Paula Freitas, 22, que mora na cidade e confessa que não separa seu lixo.
A cidade também dispõe de 500 postos de entrega voluntária e 15 estações de coleta. Duas cooperativas – Coop Cicla e Cidade Limpa – são responsáveis pela triagem e venda do material. Mas dentre as cidades pesquisadas, Santo André foi a que mostrou índices mais otimistas em relação à coleta na cidade. Só no primeiro trimestre de 2010, o Semasa registrou aumento de 23% no volume de materiais recicláveis recolhidos, em relação ao mesmo período de 2009.
São Caetano do Sul
Número um em qualidade de vida, São Caetano só iniciou um programa de coleta seletiva no ano passado e que atende apenas três bairros. Diferentemente das outras cidades pesquisadas, o material reciclável do município é recolhido e armazenado em um galpão e, uma vez por ano, a prefeitura realiza um leilão cujo dinheiro é revertido para ações do Fundo Social de Solidariedade. No último leilão, realizado em março, 49 toneladas de lixo reciclável foram arrematadas. Pouco, mesmo para uma cidade de 140 mil habitantes. O município ainda oferece 95 pontos de entrega voluntária, além da coleta seletiva nos três bairros atendidos. Um problema para pessoas como a dona de casa Ana Maria Tereza Barbosa de Oliveira, que separa o seu lixo há cinco anos, mesmo sem a coleta seletiva atender o bairro onde mora. “Eu deixo tudo o que é reciclável separado do lixo úmido e depois levo para os pontos de coleta”, relata ela.
São Bernardo do Campo
Moradora de São Bernardo do Campo, a professora Neuza Maria Zanutto de Melo sempre separou o seu lixo mesmo sem haver na cidade um serviço de coleta de porta em porta. Há dois anos, ela encontrou uma maneira de agir corretamente e ainda ajudar outras pessoas. “Eu separo o lixo reciclável e toda quinta-feira um catador conhecido passa aqui na rua e leva o material dos moradores”, explica ela.
A coleta seletiva na cidade é fraca. De acordo com a prefeitura, em 2009, das quase 680 toneladas de lixo geradas diariamente, apenas pouco mais de cinco toneladas foram para a reciclagem. Para contribuir com a coleta seletiva, os munícipes precisam separar o lixo entre papel, plástico, vidro e metal e levá-lo a um dos 202 ecopontos da cidade. “Os caminhões que realizam a coleta tem as caçambas separadas para cada tipo de material”, conta o diretor do Departamento de Limpeza Urbana, Osny A. Batista Silva Junior. Duas cooperativas cuidam da triagem dos resíduos e os revendem para a reciclagem.
Diadema
Diadema apóia e estimula a coleta seletiva feita por catadores. Segundo o diretor do Departamento Ambiental de Diadema, André Luiz Vaz Neves, o valor que seria pago ao aterro para enterrar o lixo é repassado aos catadores. “É claro que é um valor baixo, mas o catador recebe duas vezes, ao revender o material e por recolher o lixo”, afirma Neves.
Para ampliar a adesão dos moradores, os catadores saem uniformizados de forma a informar o dia da coleta seletiva, e pedem aos moradores que separem lixo. “Levamos um saco com os exemplos de quais são as embalagens que reciclamos: de ovo, de arroz, feijão, detergente, sabão em pó, xampu, garrafa PET, etc. Funciona mais do que se falarmos apenas sobre os tipos de material”, conta a presidente de uma das cooperativas de catadores de Diadema, Maria Mônica da Silva. Segundo a prefeitura, todos os equipamentos públicos da cidade, como escolas, postos de saúde e secretarias municipais possuem pontos de recebimento de material reciclável.